Um Futuro Renovado: A Transição para os Têxteis Regenerativos

Um Futuro Renovado:

A Transição para os Têxteis Regenerativos


A indústria têxtil tem evoluído historicamente em práticas de produção que têm um elevado impacto no equilíbrio do planeta, mas está a surgir uma nova abordagem como o foco na reparação dos danos do passado e na renovação da esperança para o futuro.

As técnicas regenerativas, como a agricultura regenerativa, a utilização de energia renovável e limpa e as práticas sociais justas e inclusivas, estão a restaurar uma indústria que tem um peso ambiental e económico enorme para o planeta e para as pessoas. Embora esta transição exija investimento, as empresas que optam por esta abordagem estão a descobrir que a sustentabilidade e a rentabilidade podem coexistir e até reforçar-se mutuamente.

Quando se opta pela inovação em vez da estagnação, abre-se a empresa a novas inspirações, modelos de negócio e à redução de custos. Além disso, satisfaz-se a crescente procura dos consumidores por produtos éticos e amigos do ambiente.

As práticas comerciais regenerativas visam restaurar e regenerar os sistemas naturais que sustentam a vida na Terra, reconhecendo que os negócios dependem da saúde dos ecossistemas e incorporam princípios de sustentabilidade para apoiar a biodiversidade, os ciclos de nutrientes e a resiliência do clima.

Em termos práticos, as empresas que adotam praticas regenerativas procuram maximizar o uso de recursos renováveis, minimizar os resíduos e a poluição, e restaurar a terra e a água. Na indústria têxtil esta abordagem pode incluir estratégias como:

utilização de fibras naturais cultivadas localmente de forma regenerativa.

implementação da economia circular através da aplicação dos princípios de repensar, reduzir, reutilizar, reparar, remanufatura e reciclar ao longo de toda a cadeia de abastecimento.

Investimento em energia renovável e transportes com baixa emissão de carbono.

Pagamento aos fornecedores e agricultores preços justos que permitam práticas regenerativas.

Já são muitas as marcas que adotaram práticas regenerativas para construir soluções circulares e sustentáveis para a indústria. Marcas como a Eileen Fisher, Patagonia e a Cotopaxi já optam por matérias-primas regenerativas, reduzindo desta forma os resíduos gerados e apoiando ao mesmo tempo as comunidades locais.

A transição para as práticas regenerativas exige investimento e inovação em toda a cadeia têxtil e ao incorporar os princípios da sustentabilidade nos seus modelos de negócios, a indústria têxtil pode desempenhar um papel fundamental na criação de um futuro regenerativo.

Uma abordagem regenerativa para a indústria têxtil pode trazer inúmeros benefícios ambientais.

A agricultura regenerativa e as fibras naturais cultivadas com práticas regenerativas podem regenerar os solos, sequestrar carbono, aumentar a biodiversidade no solo e subsolo, apoiar outros serviços ecossistémicos e contribuir para as economias locais.

As fibras naturais mais adotadas para uma indústria da moda sustentável são aquelas que nós já usamos há milhares de anos, tal como o algodão, a lã, o linho, o cânhamo e o rami.

A pesquisa e o desenvolvimento para melhorar as práticas de gestão em escala são necessárias para esta nova abordagem e são necessários mais estudos que quantifiquem o valor da agricultura regenerativa.

São igualmente necessários novos materiais que colmatem algumas lacunas de desempenho das fibras naturais e que possam oferecer a mesma elasticidade, durabilidade, repelência à água e outras características que só se encontram nos produtos sintéticos à base de petróleo.

Neste aspeto, a inovação centrada em necessidades comuns de desempenho, como a coloração e repelência à água já começou, e a fermentação está também a começar a demonstrar bons resultados, com inúmeras empresas bem encaminhadas para fornecerem alternativas aos corantes à base de petroquímicos.

Antecipa-se que todas as necessidades de desempenho podem ser atendidas com matérias-primas de base biológica, pelo que importa que seja dada uma atenção e definição crítica à biologia sintética e aos nanomateriais como alternativas do futuro.

A indústria têxtil e do vestuário gera uma enorme quantidade de desperdício, o que representa uma oportunidade significativa para melhorar a sua sustentabilidade. Cerca de 15% da produção têxtil total, o equivalente a 60 biliões de metros quadrados por ano, acaba como desperdício mesmo antes de chegar ao consumidor. Felizmente, muitas pessoas e organizações já estão a trabalhar para minimizar o desperdício nestes dois setores.

É assim necessário adotar novas tecnologias de produção de fibras, alinhadas com os ciclos da natureza, de maneira ética e sustentável, que incluam fermentação e pirólise, bem como novas tecnologias de fiação capazes de processar estas novas fibras sem comprometer a qualidade.

Por último, ao reduzir o desperdício, a quantidade de terra necessária para produzir têxteis de base biológica irá diminuir. Para este ponto importa que sejam concentrados esforços nos desperdícios tanto da indústria alimentar, como na indústria têxtil, já que ambos os sistemas estão intrinsecamente ligados, dependendo de terras agrícolas e florestais para a produção e, geralmente, contribuindo para que a humanidade exceda os limites planetários ano após ano.

Aproximadamente um terço de todos os alimentos destinados ao consumo humano é desperdiçado, enquanto a indústria da moda produz uma enorme quantidade de desperdício pré-consumidor devido ao excesso de stocks que nunca é vendido.

A produção descentralizada já é possível e não significa que toda a indústria deve ser limitada localmente em termos de produção, mas sim que as entradas na indústria são limitadas pela capacidade de suporte de zonas ecológicas especificas e a roupa é produzida localmente, quando apropriado.

Para tratar adequadamente a poluição existente na indústria têxtil, devem ser adotadas tecnologias de transição que podem ajudar a remediar os danos ambientais já causados, permitindo simultaneamente uma mudança para práticas regenerativas e de restauração.

As bactérias metanotróficas alimentam-se dos subprodutos da decomposição, como o metano e o dióxido de carbono. Estas bactérias podem ser aproveitadas para decompor materiais não biodegradáveis como o poliéster. Embora ainda se encontre nas fases iniciais de investigação e desenvolvimento, a biodegradação metanotrófica é promissora para eliminar os poluentes persistentes da cadeia de abastecimento da têxtil e da moda.

A pirólise utiliza altas temperaturas para converter os materiais nos seus elementos químicos principais. Os componentes que daí resultam podem então ser recombinados em novos materiais, o que permite que materiais atualmente não recicláveis sejam decompostos e transformados em novos têxteis. O calor e os subprodutos gasosos do processo podem também podem ser capturados e utilizados para a produção de energia. A tecnologia de pirólise está ainda limitada pelo custo e pela escala, mas os projetos existentes estão a demonstrar a sua viabilidade para lidar com fluxos de resíduos problemáticos.

A gaseificação é um processo térmico que transforma plásticos e biomassa em Syngas(gás de síntese) e CO2, que posteriormente podem ser aproveitados.

A dissolução é um processo no qual um solvente é usado para separar os polímeros, ou resíduos plásticos, de outros resíduos. Os aditivos, pigmentos e polímeros sem valor são retirados da solução porque não se dissolvem. Após a dissolução, é adicionado um coagulante para precipitar o polímero pretendido, podendo este ser retirado diretamente, sem a necessidade de uma reação química adicional.

A solvólise é usada mais comumente na reciclagem avançada do PET, mas é semelhante à dissolução porque neste processo o polímero decompõe-se nos seus monómeros constituintes. Após a “despolimerização”, outros elementos, como aditivos, cargas e outros, devem ser retirados do processo. 

A enzimólise é uma tecnologia que ainda se encontra em escala totalmente laboratorial e que usa vários tipos de biocatalisadores para “despolimerizar” o material, produzindo novos monómeros. Esta é uma das tecnologias mais promissoras, uma vez que recorre a soluções biológicas.

As novas tecnologias para a produção de fibras têxteis através de fermentação, regeneração de celulose e outros métodos de base biológica estão a surgir como alternativas mais sustentáveis. Por exemplo, as empresas estão a desenvolver formas de criar tecidos a partir de resíduos alimentares, algas e subprodutos agrícolas que, de outra forma, iriam para aterros ou incineração. Estes métodos de produção alternativos reduzem a poluição resultante do cultivo e processamento de fibras convencionais como o algodão. O apoio ao desenvolvimento e à expansão de tecnologias de fibras ecológicas será fundamental para a transição do setor.

A transição para a agricultura regenerativa é fundamental para a produção de fibras sustentáveis em escala. Porém, as práticas regenerativas requerem um investimento inicial e um período de transição de vários anos. É necessária mais investigação que quantifique o valor económico e o potencial de criação de emprego da agricultura regenerativa para a produção têxtil, de modo a acelerar a sua adoção.

Quando as fibras naturais não conseguem satisfazer necessidades de desempenho, é necessário inovar em materiais de base biológica. As empresas estão a desenvolver corantes à base de plantas e outras alternativas aos petroquímicos, mas ainda é necessário mais trabalho para materiais como o elastano. O investimento público e privado em Investigação & Desenvolvimento (I&D) para têxteis de alto desempenho de base biológica ajudaria a colmatar esta lacuna.

A restauração de terrenos agrícolas degradados tem um potencial significativo para a produção de fibras e para o crescimento económico. Investir na restauração de terras para a produção de fibras pode gerar retorno financeiro, criando empregos e matérias-primas ao mesmo tempo.

A pesquisa sobre fibras é frequentemente conduzida de forma isolada, separada dos combustíveis, polímeros e outros setores que poderiam beneficiar dos mesmos materiais. A formação de consórcios de economia circular para agregar a investigação sobre fibras, corantes e outros materiais de base biológica em todas as industrias poderia acelerar o desenvolvimento de soluções têxteis sustentáveis.

Embora a produção têxtil sustentável seja fundamental, a procura dos consumidores por vestuário ecológico também e necessária para impulsionar a mudança. Educar os consumidores sobre o impacto ambiental dos têxteis e incentivar a compra de vestuário sustentável através de marketing e benefícios pode ajudar a criar uma procura que corresponda a uma oferta melhorada.

Para fazer haver uma transição da indústria têxtil para práticas regenerativas serão necessários investimentos em novos modelos de negócio e parcerias. À medida que as marcas procuram substituir os materiais sintéticos e insustentáveis por fibras naturais e soluções circulares, os custos iniciais serão mais elevados, mesmo que as poupanças e os benefícios a longo prazo aumentem.

Sinalizamos aqui várias abordagens de investimento que são promissoras para permitir esta transição.

Os estudos existentes à data demonstram que a agricultura regenerativa pode gerar valor económico através de serviços ecosistémicos. As marcas e os investidores podem fornecer um financiamento inicial aos agricultores para a transição das terras para práticas orgânicas e regenerativas, partilhando posteriormente os lucros e os benefícios ao longo do tempo. Este modelo reduz os riscos para os agricultores, ao mesmo tempo que acelera a disponibilidade de materiais orgânicos.

As marcas e as instituições de investigação devem aumentar o financiamento para o desenvolvimento de materiais de base biológica e bioinspirados para substituir os sintéticos. O aproveitamento das soluções da natureza pode produzir novas fibras e métodos de produção que reduzem os resíduos e a poluição. As parcerias entre disciplinas como a química verde, a biomimética e as ciências agrícolas são assim fundamentais.

As marcas dispostas a serem pioneiras na adoção de materiais e métodos de produção sustentáveis enfrentam custos e riscos mais elevados. É aqui que as parcerias e os investimentos de impacto em programas piloto podem ajudar a partilhar estes custos iniciais, enquanto demonstram a viabilidade para a indústria em geral. Os programas bem-sucedidos podem então ser ampliados para alcançar um maior impacto global.

Embora as marcas devam impulsionar a mudança, os clientes também moldam o mercado. As campanhas educativas sobre o impacto ambiental da moda e as vantagens dos materiais ecológicos podem influenciar os hábitos de compra e criar uma procura por opções sustentáveis. Isto ajuda a justificar os investimentos, demonstrando o potencial para mudanças a longo prazo no setor.

Para as fibras naturais como o algodão, a lã e as fibras de origem vegetal, a agricultura regenerativa é fundamental. Estas práticas resultam em fibras de maior qualidade com benefícios adicionais, como maior resistência à seca e maior retenção de água nos solos.

O investimento na transição de mais agricultores de algodão e lã para métodos regenerativos poderia satisfazer uma parte significativa da procura de fibras naturais.

As fibras celulósicas provenientes de resíduos agrícolas, como a palha de arroz, o álcool da cana-de-açúcar e as folhas de ananás, constituem outras matérias-primas naturais e biodegradáveis. Estes resíduos, por si só, poderiam potencialmente satisfazer duas vezes e meia a atual procura mundial de fibras. A extração de fibras a partir destes fluxos de resíduos constitui uma oportunidade para gerar rendimentos para os agricultores, reduzir os resíduos e a poluição associada à queima e produzir fibras com uma pegada ambiental mais pequena.

A diversificação das fontes de fibra através do cultivo de uma gama mais ampla de fibras naturais e do desenvolvimento de novas fibras de base biológica pode ajudar a reduzir a dependência do algodão e do poliéster.

De modo a que seja permitida uma transição regenerativa em larga escala, as empresas devem repensar os modelos de negócios lineares baseados numa abordagem “extrair, produzir, descartar”. A adoção de modelos de negócio circulares que maximizem a utilização de materiais e prolonguem a vida útil dos produtos através da reparação, reutilização e reciclagem pode reduzir significativamente os resíduos e o impacto ambiental.

As empresas líderes no setor da moda já estão a implementar novos modelos baseados em serviços, como o aluguer de vestuário, plataformas de revenda e reciclagem de fibra para fibra. A expansão destas estratégias circulares a todo o sector deve ser uma prioridade.

À medida que a indústria têxtil continua a sua transição para práticas sustentáveis e regenerativas, encontra a oportunidade de estar na vanguarda de uma mudança positiva.

Embora o caminho a percorrer exija esforços conjuntos e trabalho diligente, cada passo em direção à renovação e restauração dos ecossistemas cria um futuro melhor para as comunidades e para o planeta. Havendo compromissos de melhoria contínua e uma vontade de forjar novas parcerias, a indústria têxtil pode tecer uma historia de esperança, valorizando tanto a ética como a economia, afastando uma imagem negativa que a tem acompanhado nas últimas décadas.

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