
Roteiro para a descarbonização da ITV
A NITextile marcou presença na apresentação do Roteiro para a descarbonização da ITV, realizada no CITEVE.
Luís Ramos (CITEVE) revelou que o principal objetivo desta iniciativa é o de criar um roteiro para a descarbonização da ITV e ajudar as empresas do setor a tomarem decisões sobre as melhores tecnologias disponíveis e medidas a adotarem para cumprirem com as metas de neutralidade carbónica estabelecidas para 2050.
Para atingir esse objetivo, será caracterizada a realidade atual do setor, e das suas emissões de GEE (Gases com Efeito de Estufa), e lançado um apoio para as empresas na tomada de decisões sobre estratégias de transição energética, otimização de processos, economia circular e digitalização. Serão ainda definidas trajetórias de descarbonização para o horizonte 2025-2050, bem como lançados toolkits para roteiros individualizados. A iniciativa aposta por último na divulgação, comunicação, envolvimento e capacitação dos agentes do setor.
É de destacar que em 2021 a ITV Portuguesa representou 9% das emissões de GEE das indústrias transformadoras, representado um valor de 697 kt CO2e/ano, consumindo desta forma cerca de 7% de energia no conjunto das indústrias transformadoras, com um valor de 322.000 tep. Destaca-se igualmente a evolução decrescente da intensidade carbónica da ITV nos últimos anos, fruto dos investimentos e dos apoios que as empresas do setor têm tido disponíveis.
O evento contou também com duas mesas redondas onde foram partilhadas as experiências e o estado da arte de empresas e entidades públicas.
O painel “Neutralidade Carbónica em 2050: Como lá chegar” contou com a presença de José Nogueira (Bondalti), Filipe Rodrigues (DST Solar) e Carlos Pimparel (DGEG).
Neste painel ficou claro que a Eficiência Energética é um dos primeiros caminhos que as empresas do setor devem procurar na sua jornada de descarbonização. A eficiência energética representa até 40% na redução das emissões de GEE e deve ser o primeiro pensamento das empresas antes de qualquer investimento em fontes alternativas.
Em segundo lugar, a monitorização energética, ou seja, saber onde e como é gasta a energia das atividades industriais, é também um ponto fulcral para as empresas ganharem um know-how e visibilidade de quais são os seus processos mais intensivos energeticamente e que estratégias podem tomar para reduzir o seu impacto. Contudo, as alterações de processo representam pouco (em média 7%) no contexto de medidas que as empresas tomam para a eficiência energética.
Como soluções alternativas aos combustíveis fósseis, a produção de energia própria e o consumo do excedente de outros, aproveitando a rede existente, poderá ser uma alternativa viável para empresas que queiram reduzir uma grande parte das suas emissões.
Quanto ao Hidrogénio, o painél destacou que apenas faz sentido em utilizar esta fonte energética em operações onde é difícil descarbonizar, onde há uma queima direta do produto, tal como o gás natural.
No que diz respeito à utilização de energias renováveis, tais como a eólica ou solar, é importante haver mais investimento na utilização de baterias para armazenamento e na criação de comunidades de energia, devido à intermitência das energias renováveis. A aposta em parcerias com provedores de energia que sejam remunerados consoante as poupanças que conseguem implementar nas empresas, pode ser uma alternativa interessante para quem não tem a infraestrutura ou o conhecimento para implementar medidas ativas.
Como nota final, o painel sinalizou que a eficiência e a descarbonização seguem caminhos paralelos e que faltam apoios para soluções mais arrojadas.
O segundo painel com o tema “A descarbonização como instrumento para a sustentabilidade do STV“, foi debatido por Mafalda Paz (Salsa), Bruno Correia (Etfor), Susana Serrano (Acatel) e José Teixeira (Riopele).
A pegada de carbono foi um dos temas de destaque, onde a Salsa mencionou a dificuldade de cálculo das emissões de Âmbito 3, assim como a diversidade de dados que tem de ser recolhida para as categorias que representam maior impacto nas operações das empresas. Contudo, ficou claro que as matérias-primas e uso das peças pelos consumidores representam maior parte das emissões.
A adoção de práticas e de materiais mais sustentáveis durante a conceção dos produtos bem como o lançamento de projetos de circularidade e de reparação de peças usadas foi destacada pela Salsa como algumas das iniciativas que têm em curso.
A Riopele demonstrou a sua ambição de cumprirem o plano de descarbonização a que se propuseram, até 2027. A estratégia baseada em 3 eixos que comunicam entre si, mas não se sobrepõem é o pilar das atividades em curso. O foco na eficiência térmica dos edifícios, nos equipamentos, nas fontes de energia (elétrica e térmica) são algumas das áreas de atuação da Riopele, bem como a instalação de unidades para autoconsumo nas suas instalações. O investimento numa caldeira a biomassa reduziu o consumo de gás natural em 70% e no mês de outubro conseguiram mesmo uma poupança de 100%.
A Acatel tem tomado um posicionamento de grandes investimentos em novas tecnologias e materiais, de onde se destaca a utilização do Colorifix, um tingimento à base de bactérias sem utilização de produtos químicos e com um tempo de processamento bastante inferior, assim como o recentemente investimento na Endeavour da Alchemie, uma máquina que promete 85% de poupança energética e que tinge sem recurso a água. A consciência circular e a escolha de matérias-primas de baixo impacto é também uma das estratégias que a Acatel tem tomado no desenvolvimento e apresentação das suas coleções.
Já a Etfor realizou investimentos em painéis solares e luzes LED, assim como a aposta na marca própria (Playup) que conta apenas com materiais orgânicos ou reciclados e onde as peças são concebidas com estratégias de design circular. Ficou claro que as marcas têm um nível cada vez mais exigente, pois Portugal deixou de ser só um país de mão de obra batata. A Playup tem já um sistema de take-back, onde dão um benefício aos clientes para compras na loja online e tencionam promover a venda de peças em segunda mão.
A apresentação do roteiro encerrou com as palavras de Mário Jorge Machado (ATP), que destacou que Portugal tem a vantagem de ter um mix energético de renováveis bastante relevante e que juntamente com a Euratex quer tornar a Europa e Portugal num hub de produção têxtil sustentável. As colaborações com as associações são assim importantes, já que elas têm o poder de negociar junto das entidades europeias e de mitigar os impactos negativos para as empresas neste aspeto.
Luís Figueiredo (Anivec), destacou as agendas mobilizadoras em curso, tais como a digitalização, e a sua interligação com a neutralidade carbónica.
https://www.citeve.pt/inteligencia_tecnologica/projetos/rdc_itv-44a4e4d5
